Assinado Jorge Amado, e Zélia Gattai

55 cartas e bilhetes de Jorge Amado e Zélia Gattai, dirigidas ao casal de amigos Antônio e Zora Olinto, escritas entre 1965 e 1994, em cidades como Paris, Londres, Lisboa, Rio de Janeiro... e, obviamente, na Bahia.

Autor brasileiro mais adaptado ao cinema, ao teatro, ao Carnaval e, sobretudo, à televisão, com inúmeras novelas de grande sucesso , Jorge Amado (1912–2001) foi um dos escritores mais célebres e populares da literatura brasileira, traduzido em 55 países e 49 idiomas. Ao seu lado, Zélia Gattai (1916–2008), grande admiradora de sua obra, compartilhou não apenas a vida, mas também o trabalho, desde o engajamento comum, em 1945, pela anistia dos presos políticos, até os anos vividos no Rio de Janeiro, em Paris, na Tchecoslováquia e, por fim, em Salvador, na Bahia. Entre seus amigos mais íntimos estavam Antônio Olinto e Zora Seljan, com quem mantiveram uma correspondência intensa e constante.

As cartas desta correspondência inédita abordam a cultura afro-brasileira, os candomblés da Bahia, o processo de escrita de Jorge, a vida literária e social da casa sempre movimentada, as viagens pela Europa e as relações com o cinema e a televisão, além do assédio constante que muitas vezes os levava a buscar refúgio fora da Bahia. Trata-se de um conjunto excepcional que cobre quase três décadas da vida íntima, intelectual e pública de Jorge e Zélia Amado. Optamos por apresentar as cartas mais interessantes, seja pelo conteúdo, seja pelos detalhes visuais. As imagens de todo o acervo estão disponíveis sob demanda.

Jorge Amada e Zélia Gattai, 1945

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10 de março de 1975, Jorge Amado ao casal Olinto

” Estou na fazenda de uns primos meus desde os meados da semana passada, revendo uma história – como classificá-la não sei ... não é para crianças, é uma história de bichos – que escrevi em Paris em 1948. O Alfredo Machado pensa publicá-la para o Natal numa edição bonita, ilustrada por Carybé, e devo entregá-la no máximo nos começos de abril. Depois então, pegarei firme num novo romance. ”

” Finalmente foi assinado um contrato entre a Editora Martins e a Record para a co-edição de meus livros. (...) significa que novas edições voltarão a circular e eu receberei diretamente da Record os direitos dessas novas edições. Já é alguma coisa. ”

” Zélia vai hoje a Salvador (...) Eu irei a Salvador no fim de semana. Bahia é uma beleza. ”

A relação entre Carybé e Jorge Amado foi marcada por profunda amizade e intensa colaboração artística. Carybé tornou-se o principal intérprete visual do universo amadiano, ilustrando seus personagens e a cultura afro-baiana, ajudando a consolidar a imagem da Bahia popular presente nos romances do escritor.

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18 de março de 1975, Jorge Amado ao casal Olinto

” Estou em Salvador, onde cheguei a dois dias para encontrar uma produtora francesa de cinema, Claire Duval, produtora entre outros filmes de Emanuelle. Ela veio comprar os direitos para cinema de "Os Pastôres da Noite", que deve ser dirigido por Marcel Camus. ”

” Será ótimo se vocês vierem mesmo em maio para lançar o Copacabana. Certamente ainda estarei retirado, escrevendo. Mas é claro que virei a Salvador para estar com vocês. ”

” Ondina faleceu hoje às 5 horas da manhã, de uma crise cardíaca, no Pronto Socorro, para onde havia sido conduzida. Ainda ontem estava bem, segundo eu soube. Reabre-se a guerra de sucessão no Axé Opô Afonjá, logo após o enterro de Ondina que sairá às 16 horas da Igreja do Rosário dos Negros, no Pelourinho. Estive no Opô Afonjá onde Didi fez o trabalho inicial da limpeza de cabeça de Ondina mas vou ao enterro que será às 17 horas. Volto ao trabalho. ”

Ondina foi uma importante mãe-de-santo do candomblé baiano, ligada ao terreiro do Gantois e ao círculo de amizades de Jorge Amado em Salvador.

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14 de maio de 1975, Jorge Amado ao casal Olinto

” Continuo fora de Salvador trabalhando. Tenho andado muito ocupado com cineastas: Marcel Camus, que vai fazer Os Pastores da Noite, Bruno Barreto que pretende fazer o Dona Flor. Um e outro vieram trabalhar comigo e praticamente meu trabalho no último mês foi todo voltado para coisas de cinema. ”

Bruno Barreto dirigiu a adaptação cinematográfica de Dona Flor e Seus Dois Maridos, lançada em 1976 e estrelada por Sônia Braga, tornando-se um dos maiores sucessos da história do cinema brasileiro até então. Publicado em 1966, o romance é uma das obras mais emblemáticas de Jorge Amado, combinando humor, sensualidade e crítica social ao retratar o conflito entre desejo e convenção através da personagem Dona Flor, dividida entre o marido falecido, boêmio e apaixonado, e o segundo marido, respeitável e seguro. A obra consolidou internacionalmente a imagem de Amado como cronista da Bahia popular e mestiça, e o filme ampliou ainda mais seu alcance cultural.

15 de fevereiro de 1976, Jorge Amado ao casal Olinto

” Às 10 chega a TV Globo, com cameras, e às 10 e trinta Edmar Morel com netos. Ontem fui dormir mais de 1 da manhã após a estreia da remontagem do Quincas na adaptação de João Augusto no Teatro Castro Alves. Minha vida virou um inferno, não me sobra um minuto para mim mesmo. Dia 20 Paloma volta para o Rio e no mesmo dia eu sumo de Salvador para continuar meu livro, parado nas primeiras 30 páginas. ”

A relação entre Jorge Amado e a TV Globo foi fundamental para a projeção popular de sua obra. Diversos romances foram adaptados em novelas de grande sucesso — como Gabriela e Tieta — ampliando enormemente seu público no Brasil e no exterior. A televisão transformou seus personagens e histórias ambientadas na Bahia em fenômenos de massa, consolidando Amado como o autor brasileiro mais adaptado da dramaturgia televisiva.

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15 de março de 1976, Jorge Amado ao casal Olinto

” Peça-lhes a maior reserva sobre onde estou senão adeus possibilidade de trabalhar em paz — Ida e Aurelio têm sido vítimas de adulação e ameaças para dizer onde estou. O trabalho está marchando, felizmente. ”

Jorge Amado era frequentemente procurado por leitores, jornalistas e admiradores, sobretudo a partir dos anos 1960, quando suas obras passaram a ser amplamente adaptadas para o cinema e a televisão. Sua casa no Rio Vermelho, em Salvador, tornou-se ponto constante de visitas, pedidos de entrevistas e autógrafos, o que muitas vezes dificultava sua rotina de trabalho. Em diversas ocasiões, ele se retirava para o sítio ou viajava para conseguir escrever com tranquilidade, convivendo com uma popularidade intensa que fazia parte de sua condição de escritor-celebridade.

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23 de abril de 1976, Jorge Amado ao casal Olinto

” Trabalho como um cão, mas vou terminar o livro antes de viajar. ”

Jorge Amado foi um escritor extremamente disciplinado e produtivo, com mais de 30 romances publicados ao longo de mais de seis décadas de trabalho contínuo. Mantinha rotina rigorosa de escrita e acompanhava de perto edições, traduções e adaptações de suas obras. Seu legado é imenso: tornou-se o autor brasileiro mais traduzido no mundo

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30 de abril de 1976, Zélia Amado ao casal Olinto

” Como Jorge previa, o livro não ficará pronto antes da viagem – dia 14 próximo. Tudo ia muito bem – para mim, é claro – quando Jorge achou que não andava tão bem assim; resolveu reestruturar toda a segunda parte do livro. Resultado: das 245 páginas, voltou à página 85. Um trabalho enorme, mas resultou, a história tomou outra dimensão. Agora, já passou de novo das 200 páginas, para ser precisa, está na página 225. Pouca coisa vai ficar para ser escrita na Europa, pois Jorge continua afirmando que tudo concluído não passará de 300 páginas. "

” No meio de tanto personagem novo (...), tantas cabras e bodes, ainda há o compromisso de Jorge com Status – muitíssimo bem pago – de ler e julgar – num jurado de três – os contos eróticos. Até agora, já chegaram pra mais de 500 e o Mansur anuncia pra mais de mil. Felizmente, a maioria (digo felizmente para quem está com pouco tempo disponível para ler e julgar) é abaixo da crítica. Basta ler a primeira linha. Não fosse essa corrida, até seria divertido. Aparecem coisas incríveis! ”

"Jorge está trabalhando como louco, toc, toc, toc, na máquina, de manhã à noite. Por isso ele não está escrevendo de próprio punho."

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6 de maio de 1976, Jorge Amado ao casal Olinto

” Hoje é meu penúltimo dia aqui no sítio e de trabalho no romance. Estou com dois episódios prontos e o terceiro começado, serão quatro. Calculo mais um mês de trabalho. ”

” Zélia já escreveu sobre mas eu repito: preciso de duas peças, uma para dormir, outra para trabalhar e estar, pequena cozinha (kitchenette) e banheiro e latrina, e tudo quanto necessário: pratos, talheres, roupa de cama e mesa, TV, etc. Perto do Park se possível — gostei do Park-West, não vou transar com os funcionários, nem visitá-los, nem recebê-los. ”

Jorge Amado manteve uma relação editorial e intelectual com New York, que foi um importante ponto de difusão internacional de sua obra.

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5 de setembro de 1976, Zélia Amado ao casal Olinto

” Na quinta-feira tivemos a projeção de Otália da Bahia — título que será usado na França para Pastores da Noite. (...) Estiveram presentes, convidados pelo Smandek, Roberto Campos, Merchior, Michael Sarne — diretor de cinema inglês, que passou alguns anos no Brasil e alguns meses na Bahia. Ele dirigiu há alguns anos um filme que fez muito sucesso, Joana. Ele é muito nosso camarada. Ficou contentíssimo de encontrar Jorge. Sua mulher também foi, ela é um amor. Nos trouxeram de volta para casa, imaginem só, num Rolls Royce. Fiquei de queixo caído, nem podia acreditar, pois na Bahia ele tinha um jipe muito do esmulambento, se desmanchando. ”

"Jorge continua na sua marcha, as 450 páginas escritas parece que receberão ainda umas 50. Mas volto atrás, pois me dou conta que não falei nada do filme, e, portanto gostei. As músicas são muito bonitas, a fotografia linda, os artistas ótimos, os diálogos (de Jorge) esplêndidos, apenas algumas falhas de montagem, coisas corrigíveis, pois o material que Camus tem é enorme. Creio que é um filme que vai agradar em cheio. A grande qualidade dele é ser bem brasileiro, sobretudo bem baiano, com seus candomblés, suas canções, sua alegria, sua beleza. "

A colaboração entre Marcel Camus e Jorge Amado inscreve-se na continuidade do sucesso internacional de Orfeu Negro (1959), que revelou ao mundo um Brasil popular, vibrante e profundamente humano, próximo do universo amadiano. Fascinado pela força narrativa, pela sensualidade e pela presença marcante da cultura afro-baiana nos romances de Amado, Camus adaptou Os Pastores da Noite (1975), filmado em Salvador, mantendo diálogo com o escritor, que acompanhou o projeto e contribuiu para os diálogos.

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6 de dezembro de 1976, Zélia Amado ao casal Olinto

" Nos movimentamos muito, com jantares e homenagens a Jorge nos 5 dias de Itália. (...) Outro almoço também dos mais agradáveis foi em casa da diretora de cinema — ex-assistente de Fellini — hoje considerada como das maiores do mundo, Lina Wertmüller. Foi um almoço íntimo, apenas Franco Cristaldi — o produtor que comprou a opção para Tereza Batista. Lina Wertmüller possivelmente dirigirá o filme. Declara-se apaixonada pela história e virá à Bahia no começo do próximo ano para locação do filme. Tivemos a surpresa do encontro com a tradutora do Tereza, que ganhou também um prêmio de tradução, que era nada mais nada menos que a primeira mulher de Bruno Giorgi, velha amiga nossa quando morou no Brasil há muitos anos. Rafael Alberti esteve presente à entrega do prêmio, Carlos Chagas e a mulher, que se encontravam na Itália de passagem também lá estiveram. O embaixador do Brasil também marcou ponto, foi muito simpático. Não pensei que eu fosse gostar tanto de uma reunião que quase sempre resulta em chatice. Essa, pelo contrário, foi das mais interessantes, com debate entre Jorge e estudantes, na maior euforia."

" O movimento em torno de Dona Flor fervendo, jornalistas querendo a opinião de Jorge sobre o filme que ele ainda não tinha visto: não faz mal, diga alguma coisa!. Logo no dia seguinte, houve sessão privada para a gente. O filme é realmente de primeira qualidade. Divertidíssimo, bem feito, os artistas ótimos, a música do Chico Buarque das mais belas. Agora, já na terceira semana de exibição, continua a estourar todas as bilheterias de São Paulo, Minas, Goiás e Bahia. No Rio só entrará no circuito no próximo dia 15. Pena Jorge ter apenas vendido os direitos, sem participação nos lucros, pois essa gente está se enchendo da grana. "

" Somente agora, Jorge retomou o trabalho, relê Tieta antes de continuar a escrever. Penso que não falta muito, a história está praticamente pronta faltando alguns detalhes. Se tudo der certo, em abril ela cairá na boca do mundo.

" O Alfredo Machado resolveu lançar o livro do Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Já vimos a boneca do livro, as ilustrações de Carybé estão muito bem reproduzidas, a edição muito bonita, será um bom presente de Natal. O livro sobre a Bahia está ainda dependendo das ilustrações do Carlos Bastos. Parece que estão quase prontas. Todo mundo aflito por esse livro que fala de todo mundo aqui da Bahia.

" Aqui, até de Jorge tenho saudades. Não temos tempo para conversar, acabou-se a nossa intimidade. Sei das coisas através de conversas com terceiros que me chegam por acaso. Isso é chato demais. Jorge vai tentar escrever aqui, lá embaixo no quiosque, mas se não conseguir teremos que deixar de novo nossa casa. Imaginem que nesses poucos dias de Bahia ele já escreveu, entre apresentações e prefácios, seis, e outros estão na fila. Assim não dá mesmo. Ele não tem coragem de recusar nada a ninguém. "

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4 de janeiro de 1977, Zélia Amado ao casal Olinto

" De lá segui para o Rio onde me encontrei com Jorge que chegou da Bahia quase na mesma hora que eu. A imprensa toda estava à sua espera. Nosso amigo, minha querida, anda na crista da onda, os jornais trazem todos os dias notícias sobre ele, algumas verdadeiras, outras inventadas, como sempre. O carnet de compromissos cheio para os 4 dias de estada lá. Almoços e banquetes, entrevistas para rádio, televisão e outras mumunhas. O filme Dona Flor faz o maior sucesso de bilheteria. Já está na sétima semana em cartaz, em vários cinemas em cada cidade e continua a lotar as salas. Pena que Jorge não tenha acreditado no cinema nacional e tenha aberto mão de porcentagens, vendendo os direitos por quatro vinténs. Mesmo não tendo lucros nesse sucesso, estamos contentes, achamos que o filme é honesto, gostoso de se assistir.

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13 de janeiro de 1977, Jorge Amado ao casal Olinto

” Apenas uma palavra para vocês saberem que estou vivo. Mil problemas fazem com que só agora eu saia para trabalhar no fim do romance. Receberam O Gato Malhado? ”

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado, teve grande sucesso e tornou-se um clássico da literatura brasileira, especialmente entre o público jovem. Publicado em 1976 com ilustrações de Carybé, o livro conquistou leitores pela delicadeza de sua fábula sobre amor e preconceito. Embora não tenha sido um fenômeno comercial imediato como Dona Flor, consolidou-se ao longo do tempo como uma obra duradoura, amplamente adotada em escolas e constantemente reeditada.

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1 de fevereiro de 1977, Jorge Amado ao casal Olinto

" Ainda estou às voltas com o final do livro que está me dando muito trabalho. Vou escrever uma cartinha para o Fernando Camacho, agradecendo a gentileza da indicação para o Nobel e mandarei por intermédio de vocês. "

Jorge Amado foi diversas vezes apontado como possível candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, sobretudo a partir dos anos 1960, quando alcançou enorme projeção internacional com seus romances traduzidos em dezenas de países. Embora tenha recebido indicações e fosse frequentemente mencionado como representante da literatura brasileira no cenário mundial, nunca conquistou o prêmio.

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4 de fevereiro de 1977, Jorge Amado ao casal Olinto

" Continuo a trabalhar no romance, creio que tenho trabalho para mais um mês. Recebi de Seul um exemplar de Gabriela, em coreano. "

Jorge Amado teve sua obra publicada em mais de 55 países e traduzida para cerca de 49 idiomas, tornando-se o autor brasileiro mais difundido internacionalmente no século XX. Seus livros foram editados em diversos formatos — capa dura, brochura, bolso, edições ilustradas e escolares — e também adaptados amplamente para o cinema, a televisão, o teatro e o rádio, além de versões em audiolivro e formato digital.

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7 de fevereiro de 1977, Zélia Amado ao casal Olinto

" Temos andado com a casa cheia, hóspede atrás de hóspede. Primeiro foi Moustaki que nunca só importou um amigo de São Paulo — antigo músico de sua orquestra — que também aqui se instalou. E atrás da fama vieram meninas de várias idades e nacionalidades. "

" No meio dessa confusão toda Jorge retomou seu trabalho. Releu tudo que havia escrito, de cabo a rabo, e recomeçou a escrever. Passa as manhãs inteiras na máquina, mas antes damos uma andada de 40 minutos para desenferrujar. Aos domingos recebemos amigos para o banho de piscina. Ainda ontem aqui estiveram a tradutora de Jorge, para as edições americanas, Barbara Shelby com seu marido, um argentino muito simpático. "

" A Bahia, nestas vésperas de carnaval, neste calor das férias, fervilha de turistas. A ordem que os empregados têm é de dizer que estamos fora, que Jorge trabalha numa fazenda. Assim mesmo há os que não acreditam e que insistem. "

" O livro (Gato Malhado) está agradando em cheio, muitas críticas boas, muitas cartas de leitores chegam diariamente. Dona Flor continua em cartaz no Brasil todo, sendo que aqui em Salvador está entrando na 12ª semana, em três cinemas agora, com todas as sessões lotadas. Nunca se viu coisa igual por aqui. Os Pastores da Noite ainda não foi lançado no Brasil. Creio que os exibidores estão esperando acalmar o sucesso de Dona Flor e passar o carnaval, para fazerem o lançamento do filme.

Jorge Amado manteve ao longo da vida uma rede impressionante de amizades célebres no Brasil e no exterior. No Brasil, conviveu com figuras como Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Oscar Niemeyer, Carlos Drummond de Andrade e o artista Carybé, seu grande parceiro na construção do imaginário baiano. No cenário internacional, foi amigo e interlocutor de nomes como Pablo Neruda, Gabriel García Márquez, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Alberto Moravia, Federico Fellini e o cantor Georges Moustaki, mencionado aqui, refletindo sua posição como um dos escritores brasileiros mais internacionalizados do século XX.

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8 de março de 1978, Jorge Amado ao casal Olinto

" Fomos, eu, Zelia, João e Marinha, assistir o espetáculo de Zora, AS TRÊS MULHERES DE XANGÔ. Valeu a pena. É um espetáculo bonito que prende a atenção e que apesar de certa pobreza de recursos, leva as emoções da peça de Zora ao público (...) O espetáculo pareceu-me ser uma recriação das três peças do livro, fundidas numa só. Não tenho o livro aqui (tenho no Rio) para saber exatamente como foi feita a adaptação mas penso que o espírito das peças foi mantido no espetáculo único, que tem unidade e beleza. O realizador buscou uma linha mística e não folclórica, ao gosto do pessoal mais jovem. Como me disse a Rosita Salgado, diretora da Divisão Cultural da Prefeitura que patrocina o espetáculo, seria interessante ver a peça montada também sobre o ângulo folclórico, pois ela dá margem a uma e a outra montagem. Em resumo, gostamos. Acho extremamente positivo que o teatro de Zora esteja sendo levado na Bahia. "


Zora Seljan era dramaturga e mulher de teatro, dedicada à divulgação da cultura brasileira no Brasil e no exterior, esposa do escritor e diplomata Antonio Olinto. Pelas cartas, percebe-se que Jorge Amado e Zélia Gattai mantinham com o casal uma amizade profunda, quase familiar (“compadres”), mas também uma forte solidariedade intelectual e artística. Eles apoiavam as montagens das peças de Zora (como As Três Mulheres de Xangô), elogiavam e valorizavam a crítica literária de Olinto, divulgavam seus projetos, enviavam material, organizavam encontros e os integravam a seus círculos culturais no Brasil e na Europa. O apoio era, portanto, ao mesmo tempo afetivo, literário e estratégico, dentro de um compromisso comum com a promoção da literatura e do teatro brasileiros.

4 de setembro de 1980, Jorge Amado ao casal Olinto

” Zélia veio assinar o contrato para a adaptação dos "Anarquitas" para novela das 6 horas, na TV-Globo, o que será ótimo para o livro que acaba de alcançar a 3ª edição em dez meses. "

Zélia Gattai foi escritora e memorialista brasileira que estreou com grande sucesso em 1979 com Anarquistas, Graças a Deus, consolidando uma carreira própria marcada pela memória, pelo exílio e pela vida cultural do século XX; publicou diversos livros e tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras em 2001. Companheira de vida de Jorge Amado desde 1945, teve papel essencial em sua trajetória como primeira leitora, conselheira crítica, organizadora de arquivos e apoio nos anos de exílio, além de guardiã de sua obra após sua morte — mas o apoio foi claramente mútuo: Jorge incentivou decisivamente a carreira literária de Zélia, encorajando sua estreia, promovendo seus livros e reconhecendo publicamente seu talento, numa parceria afetiva e intelectual de verdadeira colaboração.

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30 de novembro de 1983, Jorge Amado ao casal Olinto

" Talvez vocês lá tenham sabido que o Abdias Nascimento agora voltou. Veio se promover às minhas custas, e anda nas conferências e formais a dizer que sou racista (eu e o povo da Bahia) — imagine-se. Eu, bem do meu, nas respostas, e como se ele não existisse. Mas, a cada instituição ou pessoa que me solicitam comigo, ele volta à carga pois o que ele quer é aparecer. Com isso perde seu tempo, o velho racista Abdias — eu o conheço de longa data. "

Nos anos 1980, o intelectual e ativista negro Abdias Nascimento criticou Jorge Amado, argumentando que certas representações da cultura afro-baiana em seus romances poderiam reforçar estereótipos ou uma visão folclorizada do negro. No entanto, essa posição nunca foi consensual: muitos estudiosos e líderes do movimento negro reconheceram em Amado um dos escritores brasileiros que mais valorizou personagens negros, o candomblé e a cultura afro-brasileira em escala internacional. Assim, não se tratou de uma “polêmica central” de sua carreira, mas de críticas específicas dentro de debates mais amplos sobre representação racial na literatura brasileira.

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17 de dezembro de 1984, Jorge Amado ao casal Olinto

" Chegamos ontem, domingo, 16, de Porto Alegre – tarde de autógrafos; assinamos livros durante quatro horas e meia. Depois da maratona começada no Rio, continuada em São Paulo, na Bahia e em Porto Alegre. Estamos mais que exaustos, estamos realmente estafados, não nos aguentamos em pé. "

" Li, ontem, em O Estado de São Paulo, o magnífico artigo de Antonio sobre Tocaia Grande, onde a generosidade do amigo se mistura à agudeza e ao saber do crítico literário – um senhor artigo que me comoveu e me envaideceu. "

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6 de agosto de 1985, Jorge Amado ao casal Olinto

" Deixei à Eduard Brocham e a italianos em Stock […] e falei com entusiasmo sobre o livro – uma palavra de Antonio pode ser da maior utilidade. “O ponto de vista doente” – edição brasileira esgotada, eu mandei para o Gallimard; sendo que, ao almoçar com o Gallimard, falei e Antonio anunciou envio do romance e fiz o elogio justo e entusiástico. "

Essa carta mostra que Jorge Amado mantinha uma relação direta e estratégica com grandes editoras europeias, como a Stock e a Gallimard, atuando não apenas como autor consagrado, mas também como mediador cultural e articulador literário. Ele participava de almoços com editores, enviava exemplares, recomendava obras de amigos e promovia ativamente seus livros no exterior, demonstrando pleno conhecimento do funcionamento do mercado editorial internacional. Seu prestígio tinha peso real nas decisões editoriais, e seu apoio aos colegas, como Antonio, combinava amizade, solidariedade intelectual e visão estratégica de circulação internacional da literatura brasileira.

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5 de março de 1988, Jorge Amado ao casal Olinto

" Youri Daskevitch
União dos Escritores da U.R.S.S.
Piatnitskaya Ulitsa, 41
Moscou – U.R.S.S. "

É interessante porque mostra a inserção internacional de Jorge Amado no circuito literário oficial da União Soviética, num período em que a U.R.S.S. mantinha uma política cultural ativa e estratégica. O facto de ele enviar livros diretamente à União dos Escritores, em Moscou, revela não apenas reconhecimento institucional, mas também uma circulação organizada das suas obras no bloco socialista. Isso confirma a importância de Amado como autor traduzido e promovido internacionalmente, além de evidenciar as redes culturais e políticas que sustentavam a difusão da literatura brasileira no contexto da Guerra Fria.

E muitas outras cartas e bilhetes de Jorge Amado e Zélia Gattai

Apresentamos, nesta página, algumas das cartas que consideramos mais interessantes desta correspondência entre o casal Amado e o casal Olinto. O restante do acervo inclui cartas manuscritas, cartas datilografadas assinadas (com ou sem anotações manuscritas), bilhetes autógrafos, envelopes, entre outros documentos. Além do conteúdo, que é riquíssimo, os detalhes materiais também chamam a atenção: o papel timbrado utilizado, as caligrafias, os envelopes com seus selos etc. Uma verdadeira viagem!

Esta coleção é apresentada com possibilidade de aquisição

Procuramos um colecionador, um museu ou uma instituição de alto nível a quem transmitir essa correspondência. Caso tenha interesse ou possua outros documentos autógrafos de Jorge Amado que deseje avaliar, autenticar ou vender, entre em contato conosco pelo e-mail contato@glorias.com.br, pelo site www.glorias.com.br ou por meio deste formulário.

Assinadojorgeamado.com.br é um site independente que apresenta uma correspondência de Jorge Medo e Zélia Gattai. Não é afiliado a nenhuma organização oficial ligada aos descendentes do casal. Todas as peças apresentadas são autênticas e devidamente documentadas.